A atuação da atual Câmara Municipal de Guaranésia vem sendo alvo de críticas diante de questionamentos sobre o cumprimento de uma de suas principais atribuições: fiscalizar os atos do Poder Executivo e defender os interesses da população.
Entre os pontos que têm provocado questionamentos está a falta de uma investigação legislativa mais aprofundada sobre uma denúncia anteriormente recebida e também publicada por este jornal envolvendo o prefeito João Carlos e um empresário do ramo têxtil.
Segundo a denúncia divulgada, em uma conversa relacionada à venda de um lote pertencente à Tecelagem Maranata, o prefeito teria afirmado ao empresário que somente permitiria a venda caso o imóvel fosse negociado com o empresário conhecido como Claudinho, pelo valor de R$ 50 mil, sob a alegação de que, caso contrário, tomaria o lote.
A denúncia, pela gravidade, deveria ser objeto de apuração pelos órgãos competentes, especialmente pelo Poder Legislativo, que possui instrumentos de fiscalização sobre os atos do Executivo.
Caso uma eventual investigação venha a comprovar irregularidades, poderão ser adotadas as medidas previstas na legislação, inclusive aquelas relacionadas à responsabilização política do chefe do Executivo, observados o devido processo legal, o contraditório e a ampla defesa.
Princípio da impessoalidade também entra no debate
O caso também levanta uma discussão sobre um dos princípios fundamentais da Administração Pública: a impessoalidade.
De acordo com a Constituição Federal, a Administração Pública deve obedecer, entre outros, aos princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência.
É justamente nesse ponto que surgem novos questionamentos.
A direção deste jornal afirma que, em situação envolvendo um lote relacionado ao próprio jornal, teria ocorrido uma conduta diferente por parte da Prefeitura. Segundo a alegação apresentada, teria sido determinada uma restrição na escritura do imóvel, estabelecendo que a proprietária não poderia vender o lote durante o prazo previsto no contrato de doação onerosa.
Diante disso, surge uma pergunta que precisa ser respondida:
Se havia uma restrição impedindo a venda do lote pertencente ao jornal, por que outros lotes poderiam estar sendo comercializados e, principalmente, por que o prefeito estaria supostamente atuando para viabilizar a aquisição de um imóvel por determinado empresário?
Para a direção do jornal, situações dessa natureza podem caracterizar tratamento desigual e, em sua avaliação, configurariam perseguição política.
A proprietária do jornal informa que pretende buscar o Poder Judiciário para que os fatos sejam analisados e, se for o caso, sejam determinadas as medidas cabíveis.
É importante ressaltar que as denúncias ainda dependem de apuração e eventual comprovação pelas autoridades competentes. Cabe aos órgãos de fiscalização e à Justiça analisar documentos, circunstâncias e responsabilidades.
Câmara precisa fiscalizar ou apenas votar projetos?
Outro ponto que merece atenção é a proposta de criação de novos cargos comissionados na Prefeitura de Guaranésia.
Segundo as informações que chegaram ao conhecimento deste jornal, o prefeito João Carlos pretende criar novos cargos de livre nomeação.
A questão que se coloca não é apenas a quantidade de cargos, mas principalmente a necessidade de discutir qual é a justificativa para sua criação, quais funções serão exercidas, qual será o impacto financeiro para o município e se essas atividades deveriam ser desempenhadas por servidores efetivos aprovados em concurso público.
A crítica direcionada aos vereadores é justamente esta: antes de simplesmente votar pela criação dos cargos, o Legislativo deveria analisar profundamente a matéria, questionar o Executivo e verificar se existe efetiva necessidade administrativa.
Também é legítimo questionar se novos cargos poderiam beneficiar aliados políticos ou pessoas ligadas ao grupo que atualmente administra o município.
Essa, porém, é uma questão que precisa ser esclarecida documentalmente e não pode ser tratada como fato comprovado sem investigação.
O que a população pode exigir é transparência: quais cargos serão criados? Qual será o salário? Qual será o custo anual? Quais serão as atribuições? Por que não realizar concurso público?
Ministério Público tem questionado uso de contratos temporários
A discussão sobre cargos públicos e contratações temporárias não é exclusiva de Guaranésia.
Em diferentes municípios de Minas Gerais, o Ministério Público tem questionado situações em que contratos temporários são utilizados para atividades consideradas permanentes da Administração Pública.
Em casos levados à Justiça, o entendimento aplicado é de que a contratação temporária deve atender aos requisitos previstos na legislação, incluindo necessidade temporária de excepcional interesse público, prazo determinado e previsão legal.
A crítica do Ministério Público em diferentes ações é justamente contra a utilização recorrente de contratos temporários para preencher necessidades permanentes do serviço público.
Em situações dessa natureza, a realização de concurso público aparece como instrumento para formação do quadro efetivo de servidores.
Há também exemplos recentes de municípios mineiros nos quais o Ministério Público buscou judicialmente a substituição de contratações temporárias consideradas irregulares por servidores efetivos aprovados em concurso.
São situações que demonstram que o tema merece atenção dos vereadores de Guaranésia.
Não se trata de afirmar que a situação de Guaranésia seja ilegal. Trata-se de questionar se o município está adotando os procedimentos exigidos pela Constituição e pela legislação para preencher seus cargos públicos.
E quem fiscaliza a própria Câmara?
Existe, entretanto, uma questão ainda mais delicada.
Se a Câmara Municipal pretende cobrar do Poder Executivo o cumprimento das regras constitucionais relacionadas ao serviço público, é necessário que o próprio Legislativo dê o exemplo.
Segundo informações levantadas pelo jornal, a Câmara Municipal de Guaranésia estaria há mais de 12 anos sem realizar concurso público para seu quadro de servidores.
Se confirmado, o dado levanta uma pergunta inevitável:
Como cobrar do Executivo aquilo que o próprio Legislativo não pratica?
A Constituição Federal estabelece o concurso público como regra para ingresso em cargos e empregos públicos, ressalvadas as hipóteses previstas no próprio texto constitucional.
Por isso, a situação da Câmara também precisa ser discutida publicamente.
Quantos servidores efetivos existem atualmente?
Quantos ocupam cargos comissionados?
Quais funções são permanentes?
Há servidores contratados sem concurso?
Quando foi realizado o último concurso?
Quais cargos estão vagos?
Quanto a Câmara gasta atualmente com pessoal?
Essas são perguntas que os vereadores deveriam responder à população.
O papel do vereador não é apenas votar
O vereador não foi eleito simplesmente para votar projetos encaminhados pelo prefeito.
Entre suas funções está justamente fiscalizar o Executivo, acompanhar a aplicação dos recursos públicos, analisar contratos, questionar atos administrativos e defender os interesses da população.
Quando uma denúncia grave chega ao conhecimento do Legislativo, o mínimo que se espera é que ela seja analisada com seriedade.
Se não houver irregularidade, que a investigação demonstre isso.
Se houver irregularidade, que os responsáveis sejam responsabilizados.
O que não pode acontecer, na avaliação deste jornal, é uma denúncia grave ser simplesmente ignorada sem uma apuração adequada.
A população tem o direito de saber o que está acontecendo com o patrimônio público, com os cargos municipais e com os atos administrativos praticados pelo Executivo.
Ministério Público também poderá ser provocado
Diante dos questionamentos apresentados, este jornal avalia buscar o Ministério Público de Minas Gerais para que sejam analisadas as situações envolvendo a Prefeitura de Guaranésia, especialmente no que diz respeito a eventuais contratações temporárias, cargos públicos e aos fatos relacionados aos imóveis mencionados nesta reportagem.
Também cabe à Câmara Municipal decidir se irá exercer efetivamente sua função fiscalizadora.
A pergunta que fica para os vereadores é simples:
A Câmara de Guaranésia vai investigar as denúncias e cobrar explicações do Executivo ou continuará apenas acompanhando os acontecimentos?
E existe uma segunda pergunta, talvez ainda mais importante:
Se o Legislativo pretende fiscalizar o cumprimento da Constituição pela Prefeitura, quando pretende cumprir integralmente os mesmos princípios dentro da própria Câmara?
A população que elegeu os vereadores tem o direito de cobrar respostas.
Fiscalizar não é perseguir. Investigar não é condenar. Questionar não é acusar. Fiscalizar é uma obrigação constitucional do Legislativo.
E, diante das denúncias e questionamentos apresentados, o que a população espera é exatamente isso: investigação, transparência e respostas.
O jornal permanece aberto ao prefeito João Carlos, à Prefeitura de Guaranésia e à Câmara Municipal para apresentação de esclarecimentos, documentos e manifestação sobre os fatos mencionados nesta reportagem. Eventuais respostas serão publicadas, garantindo o direito de manifestação dos envolvidos.


