Com as eleições de outubro já despontando no horizonte, deputados federais mineiros pagaram, em 2025, R$ 635,3 milhões em emendas individuais de transferências especiais, as chamadas emendas Pix, às prefeituras do estado. Em comum, a maioria dos repasses tiveram como destino final as bases eleitorais em que os parlamentares tiveram votações expressivas no pleito de 2022, quando acabaram eleitos para o atual mandato.
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O valor representa um ligeiro aumento, de quase 3% na comparação percentual, mas na casa de R$ 17,7 milhões em valores reais, em relação às destinações feitas usando o mesmo mecanismo em 2024, quando os repasses somaram R$ 617,5 milhões. Os dados foram levantados por O TEMPO com base nas informações registradas no Portal da Transparência da Controladoria-Geral da União (CGU) e na plataforma Transferegov, que busca um detalhamento de como os valores enviados pelos deputados serão utilizados pelas prefeituras.
A reportagem cruzou as informações com os dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que mostram a votação obtida por cada parlamentar nas eleições de 2022. Na análise dos dados, é possível ver que os deputados miraram se consolidar em áreas onde tiveram votação expressiva ou que possuem histórico familiar ligado à política para financiar atividades culturais, aquisição de veículos e equipamentos, além de obras, a grande maioria, de pavimentação de vias. O recorte mais latente é do deputado federal Weliton Prado (Solidariedade).
Parlamentar mineiro que destinou o maior valor em transferências Pix em 2025, Prado enviou R$ R$ 18.451.612,08 no ano passado. A verba foi integralmente destinada a Uberlândia, no Triângulo Mineiro, para custear as obras do 1º Centro de Prevenção ao Câncer. Na cidade, Prado foi o segundo candidato a deputado federal mais votado nas eleições de 2022. O irmão de Weliton, o deputado estadual Elismar Prado (PSD), foi o mais votado em Uberlândia à época dentre os postulantes à Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG).
Quem também transferiu recursos de modo imediato a Uberlândia foi a deputada Ana Paula Leão (PP). A parlamentar, mais votada da cidade em 2022 e casada com o ex-prefeito Odelmo Leão (PP), depositou R$ 4.702.500,00 na conta da administração municipal – o maior valor dentre todas as cidades em que ela empenhou recursos. A verba, segundo dados enviados ao Transferegov, vão para apoio a um torneio de pesca esportiva, festival de quadrilhas e revitalização do camelódromo e de praças da cidade, dentre outras finalidades.
Somados, os valores enviados por Prado e Leão fizeram de Uberlândia, terceiro maior Produto Interno Bruno (PIB) de Minas, a cidade do estado que mais recebeu transferências em Pix da bancada mineira no ano passado. Outros exemplos de parlamentares que optaram por fortalecer as bases eleitorais são os deputados federais Padre João (PT), Odair Cunha (PT), Delegado Marcelo Freitas (União), Emidinho Madeira (PL) e Luiz Fernando Faria (PSD).
Todos eles, na análise dos cinco municípios que mais receberam emendas Pix dos respectivos mandatos, priorizam cidades em que tiveram a maior ou segunda maior votação. Na lista, diferentemente de Uberlândia, a grande maioria dos municípios são de médio e pequeno porte.
Na avaliação do cientista político e ex-professor da UFMG Carlos Ranulfo, apesar do poder concedido aos parlamentares para definir o envio de recursos de recebimento imediato para intervenções de interesse próprio, as emendas Pix podem não se converter, diretamente, em votos. Para ele, o mecanismo só surtirá efeito nas urnas caso haja uma aplicação correta. Em abril de 2025, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Flávio Dino, fechou cerco a esse tipo de repasse e exigiu apresentação de plano de trabalho, que deve ser cadastrado no Transferegov, com detalhamento sobre a destinação e recebimento dos recursos.
À época, sete prefeituras mineiras foram citadas em uma lista de cidades com baixa transparência sobre os repasses. “É um dinheiro público, dinheiro do orçamento e você pulveriza sem estabelecer qualquer prioridade. Se você pega o país inteiro, são bilhões, quase metade do orçamento que o governo federal tem, seja ele qual for o presidente, vai ser gasto pelos deputados nas suas bases eleitorais. Mas não tem critério algum, é só o fortalecimento da base eleitoral do deputado. Isso é um desastre completo”, analisou.
Para Ranulfo, outro reflexo da destinação em massa de recursos às bases eleitorais é a baixa renovação na Câmara dos Deputados. “O que um candidato concorrente vai ter contra um deputado que tem milhões, todos os anos, para atuar na sua base eleitoral? Em muitos casos vai ter só o discurso. Então começa-se a criar uma casta no parlamento”, acrescentou.
Emendas em 2026
O advogado especialista em direito eleitoral Lucas Neves lembra que, em 2026, as emendas devem ser pagas até 30 de junho para que atenda aos critérios definidos pela legislação eleitoral. “Este prazo está relacionado à execução/pagamento dos recursos, e não exatamente ao momento em que o deputado indica a emenda no orçamento”, destacou. Neves ainda reforçou a proibição de promoção pessoal de parlamentares e prefeitos a partir do uso das emendas.
“O uso eleitoreiro da máquina pública compromete a moralidade administrativa e pode gerar severas consequências jurídicas nas esferas eleitoral, administrativa e, eventualmente, penal”, acrescentou. A reportagem procurou o coordenador da bancada mineira na Câmara dos Deputados, deputado federal Igor Timo (PSD), para comentar sobre os dados, mas os contatos não foram correspondidos até o fechamento da edição.
Os pix enviados pela bancada federal mineira em 2025
Deputados federais mineiros irrigam bases eleitorais com emendas pix um ano antes da eleição


